Manuscrito bostalokista

Ser bostalokista é antes de tudo um exercício de autoanálise e bom senso.

Manuscrito bostalokista

 

Um ponto fundamental no pensamento bostalokista se encontra na construção mental de situações diversas em que a pessoa possa se encontrar e como ela reagiria. Considere o caso em que você se encontra em uma situação que recebe seu julgamento de acordo com suas condutas morais, religiosas, etc. Estando nesta situação, você gostaria ou acharia justo receber o julgamento que você (fora desta situação) aplica? Em outras palavras, você gostaria de passar por aquilo que julga os outros, se estivesse no lugar deles? Esta é apenas uma forma de se manter moralmente coerente e perceber se suas ações são consequência de uma raiva indiscriminada ou se é justificável diante de seu próprio conjunto de códigos morais.

Um segundo aspecto importante está no conceito de que o homem é um animal social e, então, colaborativo. Obviamente, não colaboração com qualquer outro ser humano, mas com aqueles que fazem parte do seu círculo social de influências, sejam familiares, religiosos, de amizade, de trabalho, de identificação (cidade, estado, país, time de futebol, personagem favorito, etc). Não estando nem no extremo de seres como aranhas solitárias, nem como as formigas, nossa espécie é um coletivo de indivíduos com vontades, capacidades, objetivos e sonhos próprios. Diante deste paradoxo, é preciso entender que nem um, nem outro pode ser sobreposto totalmente. A vida em sociedade restringe nossas ações a um certo nível e esse nível precisa ser balanceado, de modo a trazer a melhor possibilidade de ambas capacidades. Este é o grande desafio. E é por isso que acredito que surgiram governos ao longo da história humana. Sejam eles monárquicos, democráticos, ditatoriais, mas sempre representaram uma forma de tentar organizar indivíduos em um grupo grande e de maneira funcional. Não é a toa que não precisamos saber fazer todos os processos com os quais nos deparamos diariamente a todo canto: não precisamos saber plantar, cultivar, colher, cozinhar, transportar, desenhar, programar, fabricar, etc. Precisamos apenas nos especializar em alguma tarefa — e torcer para que existam pessoas o suficiente para se especializarem em todas as tarefas necessárias — e teremos a sociedade funcionando (se isso é bom ou ruim, fica a cargo de quem está lendo decidir).

Tendo isso em mente, é fácil querermos agradar e dar vantagem ao nosso grupo. Podemos prioriza-lo, mas não esquecer que de outros grupos também dependemos. E não, a solução não é exterminar os outros grupos, meu caro ser. Grupos se formam e, quando estão com uma certa quantidade de integrantes, podem se separar eventualmente e naturalmente. Ainda mais porque em um grupo não haverão os mesmos gostos em exatamente todas as coisas. Grupos diferentes, gostos diferentes: nos conectamos com vários grupos por várias razões; integrando cada um deles, acabamos definindo nossa identidade individual (mesmo que o grupo seja só de um indivíduo).

Um terceiro aspecto cai sobre uma especialidade do primeiro e do segundo: respeitar o indivíduo na sociedade como se fosse com você. Se existem direitos trabalhistas? Ora, até que ponto isso é bom para você como empregado e você como empregador? É neste tipo de forças opostas que precisa nascer a racionalização e a criatividade para se desenvolver uma solução que beneficie ambos. Claro que pode ser impossível de ambos saírem ganhando em tudo, mas é necessário um balanço. Apesar de parecer idiota, é com este olhar que devem ser pensadas ações como indivíduo fazendo parte de uma sociedade. Afinal, as ações são ótimas formas de exteriorizar seus códigos de conduta morais.

Seguindo o raciocínio, um quarto ponto igualmente abrange o primeiro e o segundo: respeitar os grupos distintos como se fossem o seu próprio.

E, agora, para um quinto, faz-se necessário considerar uma situação. Como vivo em uma sociedade constituída dentro de um país, com leis e regras que formam um governo representativo, é preciso pensar o seguinte: qual o objetivo de existir este governo? Observando atentamente, pode ser feita a declaração de que: o governo existe (ou deveria existir) para unificar uma sociedade (em seus vários grupos contendo indivíduos), trazendo prosperidade para ela. E como se traz prosperidade? Tecnicamente, fazendo a sociedade se reproduzir e conseguindo manter os indivíduos (novos e já existentes) vivos. Como fazer isso? Mantendo condições para que consigam desempenhar esse papel, consigam condições de se manterem vivos por muitos anos (para reprodução, mas também criação). Claro, trabalho é necessário para girar a roda. Trabalho, alimento, cultura, educação, lazer, segurança. Palavras muito utilizadas em época de eleições, mas que soltas não ressoam muito sentido. Mas elas precisam existir para que a sociedade continue existindo, prosperando. E é como papel de um governo organizar como acontecerá.

Existem muitas discussões acaloradas de qual a melhor forma, sem dúvidas. Mas, na atual conjuntura, é preciso pensar em alguns aspectos: faz sentido o governo prover condições mínimas para todas as pessoas? Acredito que sim. Acesso a luz, saneamento básico, vias. De fato, isso parece o mínimo. Mas com esse mínimo, é possível atingir a maioria das pessoas? Como e o que farão para atingir? Programas sociais parecem ser fundamentais para aumentar a qualidade de vida da sociedade como um todo, como: vacinas — diminuindo a mortalidade infantil —, transporte público — possibilitando pessoas se deslocarem para desempenhar seu trabalho. Outros problemas existem e, para soluciona-los ou previni-los, têm-se a educação, a polícia, os hospitais. É papel do governo cuidar deles, administra-los, organiza-los, fiscaliza-los? Alguém terá que pagar a conta por cada coisa que é feita pelo governo, quem será?

É neste ponto que entra o quinto aspecto: para uma sociedade prosperar, é imprescindível haver uma colaboração de todos em prol do avanço da sociedade. Reconhecer que duas pessoas de pé podem estender a mão para uma pessoa no chão, ou uma pessoa pode estender a mão para duas no chão como uma analogia para que a sociedade precisa se ajudar, levantando quem está no chão — lembra de que você pode estar na situação de quem está no chão — é o que mais faz sentido. Pode ser por iniciativa pública, pode ser por iniciativa privada, mas seja qual for a forma, se você faz parte da sociedade, inserido nela, é parte de seu dever como cidadão de ajudar a isso se realizar. Da mesma forma que, uma vez que estiver de pé, aquele indivíduo conseguirá ajudar outros também.

Perder tempo discutindo se é melhor iniciativa privada ou pública não vai mudar a situação. O que irá mudar a situação é sua ação e divulgação, para que haja mobilização de mais pessoas e grupos por aquele tipo de ação.

Ah, mas — você pode argumentar — você está idealizando muito, o mundo não é assim, as pessoas não são todas honestas. Não interessa, querido ser. Este é um manuscrito sobre os princípios que baseiam um bostalokista e não sobre uma proposta de governo para a próxima eleição. Tenho em mente esses aspectos listados, fica claro que o ponto, no fim das contas, remete a uma visão inicialmente egoísta, mas que é necessária para aflorar pensamentos e ações colaborativas e coletivas, em prol de algo maior que o próprio indivíduo. Basta a cada um pensar, agir e demonstrar seu ponto para a sociedade. Não é sobre um ser de livre mercado e, portanto, haver estado mínimo em tudo. É sobre entender como lidar quando se coloca no lugar do outro e pensar na forma que beneficie da maneira mais balanceada para haver avanço da sociedade.

Portanto, se quiser enquadrar um bostalokista em direita ou esquerda, pare e reflita: faz sentido ficar enquadrando tudo de forma binária? Ou será que existem situações em que um tipo de ação é melhor que outro e que por acaso cada um faz parte de uma corrente de pensamento distinta? Com o foco no indivíduo e na reflexão do seu papel, fica claro que é uma grande besteira criar tais separações e que agrupam pessoas que não podem pensar fora das delimitações impostas. Nem religiões seguem estritamente os códigos de conduta. Existe uma certa possibilidade de incluir a liberdade do indivíduo. Se não fosse, por que existiriam monges cristãos pensadores — como Santo Agostinho —, se a bíblia já estava escrita? A possibilidade de dar criatividade para o indivíduo se expressar e colocar sua posição no mundo para os outros é de extrema importância — seja lá qual finalidade venha disto.

Certo, mas se cada um pensar como seria na própria situação, mesmo assim pode dar errado, as vezes muito errado. E como. Mas vivemos em sociedade, quer o quê? Em um universo em que interações ocorrem de forma desejada e indesejada. Cabe a nós tomarmos para si aprendizado de cada situação e aprimorarmos nossa forma de agir e respeitar a si e ao próximo. Respeito é necessário. Aprender e aprimorar com as experiências para uma tomada de decisão e ações mais justas são o que fazem um avanço se tornar mais sólido. Não ter medo de reconhecer que errou e que está incerto é um grande passo para se acertar na próxima vez.

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